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Uma vocação definida. (...)
Inácio Rodrigues não fez outra coisa na vida a não ser pintar, desenhar e
gravar. Autodidata, começou a se interessar por arte quando contava apenas onze
anos, no seu estado natal, Ceará. Com exceção de fase figurativa, onde alguns
reflexos atávicos podiam ligá-lo origem nordestina, em toda sua obra posterior
perpassa sutil refinamento plástico aliado à impecável realização. Por todas
essas qualidades, a pintura de Inácio Rodrigues sempre mereceu as melhores
referências da crítica especializada que, entre 1969 e 1990, concedeu-lhe mais
de vinte premiações em importantes salões e bienais nacionais. Entre elas, é
justo que se destaquem o prêmio de Viagem à Espanha, patrocinado pelo Clube
Espanhol do Rio de Janeiro, 1973, e o Prêmio de viagem ao País, do Salão
Nacional de Arte Moderna-Mec, 1975 O percurso artístico do pintor cearense foi
inverso ao da maioria dos seus conterrâneos. Em 1961 ao invés de rumar para o
Rio ou São Paulo,a meta de artistas que anseiam novas perspectivas de trabalho,
ele pôs os pés na estrada, seguiu para a Amazônia e, depois, para países
limítrofes àquela região, sempre pintando e desenhando. Em Porto Velho,
Rondônia, decorou e pintou a cúpula da catedral e, seguindo adiante, expôs em
Georgetown, Caiena, Iquito, Lima e La Paz,dentre outras cidades. Na capital
boliviana chegou a participar do Salão de Belas Artes, em 1964
Os cinco anos de andanças pela América Latina, além das aventuras romântica e
idealista. típicas dos anos 60, proporcionaram-lhe certamente valiosos subsídios
para a sua formação artística e visão abrangente das possibilidades da arte
nesta parte do continente americano. Assim, ao chega finalmente ao Rio, em 1966,
estava apto para enfrentar o desafio maior: vencer num meio culturalmente
evoluído.
Não foi luta fácil. Os anos 60 talvez tenham sido dos mais agitados para as
artes plásticas brasileiras, mormente no âmbito do Rio de Janeiro, borbulhando
em torno de novas linguagens desenvolvidas por uma talentosa geração que se
concentrava sobretudo no Museu de Arte Moderna. Foi época de propostas
contestatórias e de ideais vanguardistas que encontravam ressonâncias também na
Escola de Belas Artes, onde Inácio Rodrigues como ouvinte, pôde aprimorar seus
conhecimentos autodidatas; ao mesmo tempo, ele entrava em contato com
artistas,igualmente talentosos, todos imbuídos da discussão da arte num período
politicamente delicado para o país e que perduraria por quase trinta anos. A
princípio, a pintura de Inácio Rodrigues foi figurativa. Uma iconografia humana,
de rostos angustiados, de forte conteúdo dramático, caracterizava esse trabalho.
O pintor, porém, com, talento. transcendia qualquer concessão ao espectador,
tornando ainda mais pungente o drama de cada um deles, isolando-os por cortes
geométricos, como se os marginalizasse da sociedade. Denominando a fase’’Os
Encarcerados’’, o pintor obviamente aludia ao grave momento político nacional,
ao qual nenhum artista poderia permanecer indiferente. Alguns críticos viram
nessa figuração uma reflexão do pintor sobre o homem do Nordeste, ligando a sua
origem às raízes atávicas.
A partir de 1971, Inácio Rodrigues reformula a pintura e surpreende com a nova
fase tendo a paisagem cósmica como enfoque principal. Exposta pela primeira vez
neste mesmo ano em Belo Horizonte, Rio, Fortaleza e Juiz de Fora, essa pintura
tinha muito a ver com as expectativas do mundo quanto à corrida espacial das
grandes nações, e que culminara com a chegada do primeiro homem à lua, em julho
de 1969. Inácio,que recebera o impacto do filme de Stanley Kubrick “2001- Uma
Odisséia no Espaço”, mergulhava por inteiro na aventura do espaço. As cores
chapadas das telas, às vezes ousadas,integravam-se aos motivos espaciais e.
principalmente, aos estranhos e fascinantes pequenos objetos metálicos que
cortam poéticos horizontes. Mais uma vez o pintor valoriza os cortes geométricos
no espaço da tela e, com isso, acentua o mistério implícito em cada uma das
máquinas que povoam o seu universo ficcional.
O crítico Roberto Pontual, num comentário datado de 1972, observa que o recurso
da divisão geométrica utilizado pelo artista tinha a finalidade de “registrar
agora os extremos do micro e do macro que compõem, integrados, a vida, a
realidade, a transcendência. Micro e macro, quando os céus são cruzados por
espermatozóides ao mesmo tempo astronaves: espermonautas”.
Ainda na década de 1970, Inácio Rodrigues encontra-se com a natureza e dela faz
o motivo de sua pintura. Não era um encontro fortuito. Vinha desde os tempos de
criança, passados numa região paradisíaca do Ceará, Jericoacoara, considerado
pelos ambientalistas um paraíso ecológico. O próprio artista reconhece que, de
uma maneira ou de outra, a paisagem marcou o seu trabalho, no qual capta não
somente a beleza da natureza mas, igualmente seus problemas, sua
devastação.”Quando vivia no Rio, o meu trabalho tinha como tema “os
encarcerados” e nele já estava presente a preocupação social, dando origem a uma
paisagem metafísica na transfiguração da paisagem carioca’’, diz ele.
Sensível como todo artista, Inácio estende seu trabalho criativo a outras
linguagens, como a litogravura e o desenho. Ao mesmo tempo em que permanece fiel
aos grandes espaço da tela, ocupados por paisagens imaginárias de plástica
beleza, suave e envolvente, ele é consciente do seu dever perante a sociedade
onde vive. Hoje, morando em Atibaia, nos arredores de São Paulo convive com o
panorama deslumbrante da Pedra Grande e da Serra de Itapetinga.
“Independente de onde esteja morando, minha preocupação ecológica é constante e
vital para mim’’, acentua o artista,uma das vocações mais evidentes da pintura
contemporânea brasileira.
Texto "Os Espaços Iluminados da Natureza" de
Geraldo Edson de Andrade
Inácio Rodrigues
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